sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Ondas do Opará - Trilha sonora da novela Velho Chico

Em fevereiro tive a felicidade imensa (e surreal) de gravar minha viela de roda na versão brasileira da cantiga medieval Ondas do Mar de Vigo, de Martim Codax (século XIII) com a talentosíssima cantora Fortuna. Na adaptação - dirigida e arranjada por ninguém menos que Tim Rescala - a donzela apaixonada não canta para ondas do mar de Vigo, mas sim para as ondas do velho Rio São Francisco, também conhecido como Opará. 


Vielisticamente,


Rique

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Viela de roda à venda no Brasil (!)

                                                                       
Atenção, atenção!

Um dos raros momentos nesse vasto cenário vielística brasileiro: temos uma viela à venda.
Ninguém menos que Raine Holz  -  musicista curitibana que está prestes a lançar seu novo álbum, Éidolon - colocou seu lindo modelo Minuet, construído por Mel Dorries, à venda.

Segue seu anúncio:

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VENDE-SE HURDY-GURDY - CURITIBA

É, eu sei. Muitos de vocês vão querer me matar por isso. Eu já desisti de vendê-lo anteriormente neste ano, mas desta vez a oferta é séria. Se você tem interesse em uma viela de roda que já está aqui no Brasil, a sua chance é essa.
Vende-se viela de roda construída em 2012 pelo luthier Mel Dorries dowww.hurdygurdycrafters.com, o modelo entitulado "Minuet", considerado injustamente como um modelo de estudo. Embora simples, esta viela de roda é equipada com todas as ferramentas necessárias para aprender técnica e desenvolver afinidade com o instrumento, e possui um timbre alto, claro e brilhante. É atualmente a viela de roda mais barata oferecida no mercado internacional com a qualidade que o instrumento deve ter. De fato, uma peça formidável e de grande versatilidade. Esta foi minha viela por quase quatro anos, e foi usada com muito amor e dedicação. Não é um instrumento novo, mas o que você receberá se assemelhará quase que inteiramente com o que receberia de um luthier, pois trata-se de uma peça cuidada com extremo zelo... Afinal, é minha, e quem acompanha meu trabalho sabe o que ela já fez por mim. 
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Vamos para as especificações técnicas:

• Viela de roda construída em Padauk e Maple;
• Três cordas, sendo elas 1 cantora, 1 bordão e 1 trompete;
• Afinação clássica em G/C (G cantora, G bordão e C trompete);
• Duas oitavas cromáticas, cada tecla incluindo informação de nota;
• Do comprimento aproximado de um violino, leve e portátil;
• Tangentes de madeira ajustáveis;
• Cravelhas de viola;
• Chien na corda trompeta, obviamente;
• Manivela em formato "S", customizada a pedido.

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Acompanha esta oferta:

• Correia de couro Basso, para tocar de pé (o instrumento é bastante leve);
• Algodão próprio para o instrumento;
• Ferramenta de madeira para afinar as cravelhas;
• Bolsa de tecido com velcro feita pela esposa do luthier;
• Três cravelhas extras;
• Corda de tripa cantora, com comprimento suficiente para fazer duas cordas.

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Extra:

Case adaptado em alumínio para o instrumento, à parte (+200,00).
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Esta viela de roda foi adquirida em 2012, e juntamente com as fotos está um print do invoice de pagamento com o valor na época. O instrumento custou 1300 dólares, com 38 dólares da manivela customizada e 75 dólares de frete. Recebi o instrumento por correio e as taxas de alfândega excederam 3mil reais, paga no Banco do Brasil para retirar o mesmo na agência de Correio (foi um sufoco). Hoje este instrumento em seu modelo padrão é anunciado pelo luthier com o valor de 1400 dólares (conformewww.hurdygurdycrafters.com), isto é, sem a manivela em formato de "S".
Estou oferecendo o instrumento (SEM o case de alumínio ou frete incluso) pelo valor de R$4,800. Considere que para adquirir o mesmo instrumento pelo luthier, você terá uma fila de espera de pelos menos 4 meses, e mesmas condições de pagamento que ofereço: à vista. No entanto, se você converter o valor atual de 1400 dólares em reais, apenas o instrumento custará 4470 reais, fora a taxa de frete e a alfândega, que acredite em mim, não é só 60% do valor... Eu descobri isso comprando este instrumento.  Isso jogará este mesmo instrumento em valores acima de 7000 reais tranquilamente.
Este valor não é negociável. Não aceito reservas. O instrumento está em condições ótimas, e receberá um bom tratamento por mim em relação a cordas, algodão e breu antes de ser enviado. Polido, limpado e embalado devidamente. Quem me conhece, sabe do que se trata. Esta viela de roda foi por muito tempo a coisa mais importante da minha vida, e passá-la adiante só acontecerá nos mais altos graus de confiança, transparência e cuidado. Isso você pode ter certeza.
Podem mandar inbox aqui no Facebook ou email para twraine@gmail.com para informações adicionais de compra. Se você está considerando ter uma viela de roda entregue em questão de dias para você, está aqui sua chance. Valor melhor você não encontra, isso eu garanto. 




Gurdy in Rio!



E apesar do blog estar bem paradinho, o mundo da viela de roda - pelo menos aqui no Rio -  até que anda bastante agitado.

Há duas semanas tivemos a Feira Medieval da UFF que fechou a semana da música medieval organizada pela instituição. A semana trouxe palestras, workshops, e claro, concertos. Aqui ficam alguns registros do que ocorreu por lá; incluindo, é claro, nosso querido instrumento.

Nosso time carioca no momento é composto por quatro pessoas, ao que parece. Além de mim, sempre soube da graciosa Virgínia Van der Linden, do Música Antiga da UFF, que vira e mexe está com sua sinfonia nos concertos do grupo, também já tocada por Lenora Mendes. Contudo, as gratas surpresas que os últimos meses me trouxeram são  duas, a saber:


A viela de Eduardo sendo admirada.
Eduardo Antonello, integrante da orquestra de música barroca da UNIRIO e talentosíssimo músico que domina diferentes instrumentos como cravo, a viola da gamba, o crumhorn e claro, a viela de roda. =) Eduardo toca uma viela feita pelo workshop Altarwind, se não me engano. Ele esteve presente na feira e sua linda viela fez o maior sucesso. 

Félix Ferrá

Além do fera Eduardo Antonello, outro vielista que encontrei recentemente aqui pelo Rio foi Félix  Ferrà, que integra o fantástico grupo de música antiga Códex Sanctíssima, Félix teve aulas de viela de roda com ninguém menos que Éfrén Lopéz e toca uma viela espanhola feita sob medida: apesar de toda sua estética medieval, o instrumento inclui um trompette - apesar do som do grupo ter como base uma época em que (em teoria) o chien não era utilizado no instrumento.. O grupo conta com instrumentos lindíssimos e vozes mais lindas ainda, é realmente uma experiência mágica vê-los; e durante o festival eles se apresentaram no Centro de Artes da UFF.

É realmente maravilhoso saber que temos esses instrumentos soltos por aí fazendo música de qualidade. Acho fascinante o fato de um instrumento tão raro por aqui ser tão diverso: um na música folk, outro na música barroca e outros dois na música medieval. Não é atoa que a viela pôde sobreviver tantos séculos, mesmo enfrentando a quase extinção. Nosso instrumento é, de fato, épico.


A viela espanhola do Códex  Sanctíssima


Vielisticamente,


Rique




sábado, 20 de fevereiro de 2016

Viela na novela (!)


Rio de Janeiro. Sexta-feira de carnaval. 14:15 pm. Para quem havia passado os últimos 18 dias rodando a Irlanda de cabo a rabo, eu até que estava me ambientando bem. Havia chegado há dois dias, e tudo havia sido maravilhoso, eu acabara de fazer as pazes com meu violino. No fundo, contudo, eu sabia muito bem que a manivela ia me puxar de volta com força.

Naquele dia a cidade toda já  estava a ponto de explodir e derreter-se em meio a blocos e desfiles e cerveja. Eu ali, debaixo daquele sol, com uma viela de roda nas costas e a demo de uma adaptação de Ondas do Mar de Vigo em meus ouvidos. Eu vou gravar uma música com a Fortuna. Um trabalho do Tim Rescala. Quem eu penso que sou, gente? Minha vontade era voltar no estúdio e falar oi, mas cês tem certeza de que é pra eu tocar, mesmo? O carnaval carioca de 2016 entrando em erupção e eu tão, tão longe. Da velha Península Ibérica aos cantos mais molhados do sertão brasileiro. Opará, nosso Velho Chico, correndo pela minha mente. Saí daquele prédio atônito, louco para mergulhar naquelas partituras que tomariam conta da minha vida pelos próximos 15 dias.

Tudo isso tem um quê de humor para mim porque lembro de uma época específica. Precisamente de uma noite em que levantei e timidamente saí de uma sala de concerto e me mandei, frustrado. Definitivamente, esse lance de trilha sonora não é para mim, pensei a caminho das barcas. Não me lembro direito em que ano isso aconteceu, mas sei que eu era mais um aluno de violino do Conservatório Brasileiro de Música. Aliás, um aluno bem chatinho de se ter. Vivia trocando Bach por tunes irlandesas; deixando grandes peças de lado para aprender canções de cego da galícia de ouvido, ou sonhando com o que eu realmente queria fazer. Aquela aula inaugural do curso de composição de trilhas para TV e cinema havia me deixado profundamente impressionado e completamente descrente de minhas habilidades enquanto músico. O primeiro dever de casa era compor e gravar uma trilha para um vídeo silencioso de uma bailarina em preto e branco. Quando que eu, que mal e porcamente fazia meu papel de mero violinista, teria capacidade de me envolver em algo do tipo? Que eu esperava algo além do violino, isso eu sempre soube - naquela época eu acho que estava ensaiando minhas primeiras pesquisas a respeito da viela de roda; e minha cabeça, sempre imersa no mundo trad, não viu muito sentido em seguir naquele curso. As aulas seriam ministradas por um tal de Tim Rescala, o que parecia ser um big deal. E o fato de eu ter que compor algo direcionado a um vídeo específico me assustou, mesmo porque:

1) Eu não toco piano.

2) Nem violão.

3) Eu não sei lidar com programas de gravação/mixagem. 

4) Mal sei lidar com uma direct box.

Fato é que esse curso botou Tim Rescala no meu mapa musical, e segui com a imagem daquele cara simpático e tranquilo que falava da absurda arte de compor trilhas sonoras como quem fala de amenidades e das coisas mais banais dessa vida. Um pouco de pesquisa e boom, seu devido respeito já fazia parte de mim como músico.  Ele lá, sendo foda e talentoso e gênio, eu aqui DE BOAS com meu instrumento de mendigo medieval.

Corta para o final do ano passado, eu terminando uma aula e vendo algumas ligações perdidas no celular e várias mensagens dos meninos da minha banda. Alguém estava atrás de mim por conta de uma gravação e eu não estava entendendo o alvoroço. Peguei apenas o número na conversa e liguei:

- Alô, quem fala?

- Hm... Você quer falar com quem?

- Não sei, me ligaram desse número. Aqui é o Rique.

- Ah, oi Rique, tudo bem? Aqui é Tim Rescala (caraleo, gesticulo eu do outro lado da linha). Minha esposa te ligou. É que estava precisando de uma viela de roda para a gravação da trilha de uma novela. Você tem interesse?




- Uhum, claro.

- Ok, mais pra frente entro em contato, me dá seu e-mail.

ETECETERA ETECETERA

Essa conversa foi tão surreal e tão aleatória que eu tive tempo apenas de surtar por precisos 5 minutos. Eu achei que ele apenas superaria essa história, porque afinal quem vai querer uma viela de roda para a novela das 21:00? Ou sei lá, essas pessoas geralmente já tem contatos, com certeza acabariam utilizando apenas um cello ou uma rabeca. Ou esqueceriam, já que eu de cara deixei claro (pela primeira vez quase me arrependo de programar uma viagem) que em janeiro estaria fora do Brasil... Enfim, deixei quieto e vivi minha vida até a fatídica sexta-feira de carnaval, há precisos 15 dias. E que 15 dias.

Foi muito estudo. Deixei de ir para o feriado dos amigos de SP e MG, em Indaiatuba; e mal saí durante o carnaval por aqui. Inclusive, no dia em que saí estudei o dia todo. Perturbei os colegas de apartamento do meu namorado, que não entendiam porque tanto tempo em notas tão longas, frases repetidas tantas vezes. Caí dentro mesmo, E AINDA ASSIM, faltou estudo. Um exemplo disso é um trecho em que eu toco "dó-ré-mi, ré-ré dó...", que de última hora passou a pertencer ao Cello. Ao ver o Marcus de Oliveira tocar essas três notas, sério... Fiquei sem ar. Que interpretação. Que magia, naquele som. Quis sair correndo! Estava perfeito. Digo, a parte dos outros músicos estava perfeito.

Acho o ambiente de estúdio complicado, porque tendo ao perfeccionismo, de certa forma. Nunca fico satisfeito. Com pessoas que não conheço, então, tudo fica mais tenso para quem é tímido. E estúdio com pessoas do calibre dessas que passaram o dia comigo hoje, então... Sério. Too much, too soon. Passei o dia inteiro em outra frequência, mas uma frequência muito boa. De quem está realizando um sonho.

Hoje foi um dia muito, mas muito especial. Um verdadeiro marco em minha vida musical. Gravei quatro coisas: Ondas do Opará, a adaptação que o Tim fez para Ondas do mar de Vigo; e pequenas frases para outras peças, uma delas exigindo improviso. Sério. Um dia você está em casa trocando algodão das cordas de seu instrumento obscuro e renegado, no outro você está num estúdio maravilhoso tendo que improvisar na frente do Tim Rescala para uma música da novela das 21h00. Sei lá, cara. Apenas sei lá. Agradeço eternamente à Virgínia, que gentilmente me indicou ao Tim. Agradeço ao Tim, lógico, pelo voto de confiança e paciência comigo nas horas de gravar pequenas frases. E pela carona providencial. E agradeço aos lindos músicos que tocaram ao meu lado: Fortuna, Marcus e Davi, com suas mil flautas mágicas. Vocês são maravilhosos. Ponto.

Fortuna, que dispensa  comentários;
 e Marcus de Oliveira, mago do cello.
Poder fazer parte da trilha sonora dessa história é uma honra. E o timing foi perfeito: voltei da Irlanda com sede da nossa terra e dos nossos sons, isso aqui foi a chave dessa porta. É um novo capítulo que se inicia na minha história com esse instrumento fantástico. E eu espero que vocês possam reconhecer meu Sieg nas cenas em que ele soar; e que essas canções tragam sorrisos aos rostos de vocês.




Rique

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Viela "baratinha" no eBay, o mito.

"Nature morte à la vielle" -  Henri Horace
A pressa é inimiga da perfeição. 
Essa máxima, ainda que clichê ao extremo, é a mais pura verdade para nós, músicos. Temos que ter calma na hora de aprender uma peça nova, na hora de lidar com aquela frase que embola os dedos e o mais importante de tudo, no nosso caso, antes mesmo de morrermos trocando cordas: comprando um instrumento.

A primeira vez que vi de perto a armadilha do eBay pegar alguém, foi quando um rapaz recém-chegado ao mundo da viela não conseguia afinar ou sequer tirar som de seu instrumento. Ao jogar a questão num grupo do Facebook, a decepção: as pessoas apenas diziam que aquilo era um pedaço de madeira e serviria muito bem como lenha para uma fogueira. Palavras duras, mas verdadeiras. Comentários surgindo daqui, relatos dali e voilà: o vendedor em questão já tinha uma reputação super suja no meio da música folk, vendendo instrumentos que iam de pequenos violinos chineses - apresentados como relíquias alemãs - a vielas de roda que encantavam aqueles que estavam começando a se interessar pelo instrumento. Para a sorte deste meu amigo, ele conseguiu seu dinheiro de volta e pôde passar para o modelo Minuet do Mel Dorries, melhor coisa que ele fez. A grande maioria das pessoas, entretanto, não possui essa sorte.

O mundo da viela de roda parece exigir de nós que vivenciemos certos estágios intensos antes de atravessarmos seus portões: todos nós já tivemos aquele momento de epifania ao ver uma viela e pensar putz, é isso. Preciso. E todos nós já passamos pelo baque do affe, não há luthiers no Brasil? Vou esperar tudo isso de tempo para ter um tesouro desses? Acreditem, sei muito bem como é isso. Todos nós sabemos. É frustrante, tendo em vista que hoje em dia temos tudo que quisermos a um clique de distância. Clique este que não se aplica à nossa donzela do mundo medieval. Ter uma viela de roda boa exige paciência e pesquisa. A dedicação começa muito antes de você encostar no instrumento, o que torna tudo muito mais mágico!

Diferentemente de um violão ou de um violino, quem decide tocar viela de roda PRECISA ter muito mais cuidado na hora de escolher um instrumento inicial. O fato destes instrumentos serem fabricados basicamente na Europa complica muito nossa situação, portanto eu sou adepto do seguinte pensamento: já que vamos pagar em euro de um jeito ou de outro, paguemos logo por um instrumento que seja pelo menos semi-profissional, de modo a evitar que num futuro passemos novamente por todo o processo de juntar uma boa grana e correr o risco de desembolsar mais dinheiro ainda indo buscar um instrumento do outro lado do mundo. O ideal para nós, brasileiros, é fazer bem feito de uma vez só. Concordo que começar com um instrumento super top de linha talvez venha a ser um exagero, mas acreditem: começar com um instrumento tosco ou aquém do necessário não pode gerar nada além de um grande desgaste emocional e uma despesa que nem tão cedo será compensada.

Resolvi fazer este post porque esta semana fui abordado por mais uma pessoa que tem encontrado dificuldades em regular uma viela. Uma moça muito gentil de Goiânia me encontrou e bem, pelas fotos, me surpreendi porque de fato me pareceu um trabalho mais decente que o geral, mas ainda assim, antes mesmo de fazer a pergunta, eu já possuía a resposta: a origem do instrumento era o eBay. Ela provavelmente deu sorte, pois seu instrumento parece ter sido construido de forma mais consciente e cuidadosa. Minha experiência, contudo, diz que o caso dela é uma exceção à regra, isso se de fato o instrumento for regulado em algum momento.

A quantidade de vielas de roda encontradas hoje no eBay pode ser impressionante. No momento, eu conto sete. Para termos uma ideia, a mais cara custa R$35.000, ao passo que a mais barata, super simples e até bonita, sai a mais ou menos R$2,500. Minha pergunta é: vocês realmente acham que essas dezenas de milhares de reais entre estes dois instrumentos é obra do acaso? Não se trata de conversão de moedas, da alta do dólar ou do fato de nossa moeda estar perdendo o jogo. Precisamos entender que a arte de construir vielas de roda é quase que um mistério da liuteria. Por se tratar de um instrumento obscuro e até mesmo renegado ao longo da história, suas tradições no que diz respeito à construção e manutenção sempre foram bem nebulosas; e precisamente por conta dessa dificuldade é que os construtores desses instrumentos dedicam suas vidas inteiras ao estudo e à escuta dos mais diversos instrumentos, das mais diversas tradições que podem vir da Galícia, do interior da  França ou da remota Hungria e/ou outros países do Leste Europeu. Cada tradição com especificações e limitações próprias. É necessário entender quem são os grandes construtores, que linhas eles seguem e que tipo de instrumentos eles fazem. Existem vielas tradicionais, existem vielas eletro-acústicas, completamente elétricas, vielas abauladas, trapezoidais, vielas alto e por aí vai. O fato de vermos algo que tem teclas, roda e manivela não significa de modo algum que estamos lidando com um instrumento musical. Evitem colocar o carro na frente dos bois.

Se por um lado a utilização do eBay facilita o encontro entre o aspirante a vielista e seu instrumento, essa via também oferece riscos e pegadinhas o tempo todo, expondo à pessoa a instrumentos que seduzem pelo preço e pela aparência exótica. Detalhes ornamentais que hipnotizam alguém que ainda não compreende tudo que está em jogo pra o resultado sonoro de uma viela de roda, como alguns dos aspectos de sua "anatomia" - as tangentes, por exemplo- fundamentais para a afinação.

Verdade seja dita, eu fico meio chocado ao ver vielas  de construtores famosos como Wolfgang Weichselbaumer e Balázs Nagy em um site como o eBay. Os preços de fato parecem confirmar suas origens e DEVEM ser levados em conta; mas ainda assim, são exceções e são vielas de segunda mão (o que é bom). Já a grande maioria - ou melhor, todas - as vielas baratas encontradas nesses sites são verdadeiras armadilhas (geralmente do leste europeu) construídas de qualquer jeito e sem nenhuma pretensão de gerar um som que satisfaça um músico. Por favor, pesquisem, procurem luthiers, assistam videos no youtube e procurem músicos em comunidades online. Temos - dentre outros grupos - o Viela de Roda Brasil, temos o Hurdy-Gurdy Player e o Club Vielle à Roue, cheios de pessoas mais experientes.

Para finalizar, os deixo com pequenos vídeos de diferentes vielas. Apenas a titulo de curiosidade, comparem aspectos físicos - esses "instrumentos" problemáticos geralmente são diferentes da maioria das vielas, parecem mais rústicos, suas rodas são instáveis - e atentem às diferenças entre os aspectos sonoros também.

                                           Viela de roda ucraniana, com anúncio no eBay.
                                                        O som claramente tratado.

                                            Uma viela Weichselbaumer, das mais caras.

                                 Modelo do galego Jaime Rebollo, uma opção um pouco mais em conta
                                                                    e de qualidade.


No mais, desejo a todos muita boa sorte e muita paciência. Acreditem, pesquisar e aguardar o instrumento certo é a melhor decisão a se tomar.

Logo mais volto com novidades muito legais.

Vielisticamente,

;-)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Segundo Encontro Nacional de Vielas de Roda

Foto do Everton Rosa

Não é de bom tom contar para vocês, mas o segundo encontro de vielas de roda no Brasil quase não ocorreu. Não tínhamos uma data, um local e muito menos pessoas confirmando presença... Foi de última hora que minha amiga Aerith Asgard sugeriu que utilizássemos o II encontro  de Folk Metal do Paraná para nos reunirmos. A ideia foi a  salvação da pequena - e menor ainda na ocasião - pátria vielística.

Cheguei em Curitiba sábado pela manhã. Dividi o ônibus com minha viela e meu namorado (sim, rolaram passagens de ida e volta apenas para ela, assim evitei voar utilziando um case vagabundo por motivos de: segurança em primeiro lugar, me julguem.) e tivemos uma viagem maravilhosa. 

Ficamos na casa da Raine Holtz, que conseguiu ser uma anfitriã ainda mais maravilhosa que da última vez, tendo em vista que ela sabe usar os memes da Inês Brasil. Corremos para o Largo da Ordem, hall das já tradicionais apresentações da Raine; e de quebra conhecemos o Gabriel Inague, que recentemente trouxe sua viela diretamente de Gales. Um modelo super diferente, feito com uma cabaça africana e carinhosamente apelidado hurdy-gourdy por seu inventor, Neil Brook. Foi uma tarde LINDA. Não falamos de outra coisa que não fosse a viela de roda e sua história. E nossas experiências, ideias etc etc etc.

Luis Fitzpatrick e sua zanfona. Gentileza e talento.
Curitiba desta vez fez mais sentido para mim. Só de andar ali pelo Largo da Ordem,  ver as pessoas e respirar um pouco daquele ar já foi suficiente para eu entender mais a vibe da cidade. Amei. O que também contribuiu para eu cair ainda mais de amores por Curitiba, é claro, foi aproveitar um pouco de sua noite. Tive o prazer de assistir aos Gaiteiros de Lume tocando no Fitzpatrick's Irish Pub, estabelecimento recentemente aberto pelo gaiteiro, vielista, flautista, concerti... nista (?) e cantor Luis Fitzpatrick. Que prazer. De quebra ainda tivemos uma pequena session por lá e eu tive a sorte de tocar sua zanfona galega, construída pelo Jaime Rebollo.

Luis também cedeu seu pub para o grande evento no dia seguinte, que foi um sucesso. O pub estava repleto de estandes de venda, com hidromel, artesanato, acessórios e até instrumentos vikings. O palco, que fica bem no centro do pub como uma espécie de aquário, estavas sempre acolhendo alguém. E em algum momento estávamos lá eu, Raine e Gabriel, os únicos vielistas que realmente puderam comparecer ao encontro. No fim das contas falei apenas um pouco sobre o instrumento (quem curte folk metal geralmente sabe muito bem como a viela funciona) e toquei um pouco - digo, tocamos um pouco.



Spotted
Os vídeos completos de nossa humilde palestra/apresentação podem ser assistidos no canal da Aliança Folk.  Foi muito bom dividir esse momento com Raine e Gabriel, duas pessoas lindas que depois passaram parte da tarde comigo respondendo perguntas, deixando algumas pessoas tocarem seus instrumentos e claro, trocando ideias e experiências. Aliás, tive também o prazer de conhecer uma estudante de viela de roda lá de Curitiba, a Kakau Salinas, que tem estudado viela com o Luis e já está arrasando na técnica do chien. Muito, mas muito legal mesmo ver esse tipo de coisa. O dia foi maravilhoso. Voltamos para o Rio de Janeiro com um aperto no coração. Esse nosso encontro foi algo quase simbólico, para não passarmos o ano sem um evento voltado para nós. Foi uma reunião de amigos, algo extremamente informal; e justamente por isso, inesquecível e verdadeiro.

Deixo aqui meu sincero obrigado ao Luis e sua boa vontade, aos organziadores do evento, em especial à Aerith, tão gentil e atenciosa. Deixo também um abraço aos queridos colegas de instrumento que não puderam comparecer a este encontro, em especial à Nayane Teixeira e seu Wren, que fizeram tanta falta, e também aos meninos da Mandala Folk, Mateus Solowski e Fernando Kinach. Vocês e todo mundo do nosso querido grupo do facebook fizeram falta. Ano que vem organizaremos tudo com bastante antecedência e quero ver cada um de vocês conosco.